A Construção Identitária do Povo São Tomense
I. Na Pele da Senzala
Somos ilhas,
mas não estamos sós.
Somos terra enleada em marés,
vozes que rasgam silêncio atroz. Caldeirão de gente cruzada
por ventos de tráfico e fé.
Entre a batina do Bispo e a vara do Governador, a vila latejava em duelos de mando;
cada arraial era tribunal,
cada procissão, um motim contido.
Antes de nome, fomos número.
Antes de canto, o gemido no lodo perdido. Chegámos em porões escuros,
e o sol não era mais que um boato. Com os punhos presos,
plantávamos o futuro em terra alheia.
Na batida do chicote tirano,
crescia o silêncio das línguas roubadas;
mas, mesmo sem voz, no mais profundo oceano,
o canto persistia em ondas caladas.
E quando Amador ergueu o braço, o canto virou grito,
varreu roças, altar-mor e pelourinho:
por um momento, a ilha lembrou-se
de que a dignidade também se veste de revolta.
E nos intermináveis caminhos de barro, surgiram “Tonga” e “Gabão” –
etiquetas que atiravam para o outro lado do mundo,
serviçais, exilados sem vida.
II. Mistura Forçada
Fomos gerados no tropel de línguas,
na sombra das senzalas e nas janelas dos sobrados. Somos filhos de escravos e senhores,
de degredados e devotos, do açúcar e do cacau,
da cruz e do chicote.
No terreiro, “filhos da terra” e “reinóis”
jogavam caprichos de poder;
nas ouvidorias, magistrados mediam força
com capitães de armas,
enquanto o medo pautava o dia-a-dia.
No leito dos engenhos,
a dor conheceu o desejo.
Senhores e escravas, colheram filhos sem nome, filhos da sombra, do interdito,
da vergonha embrulhada em silêncio. E foram esses filhos,
mulatos de alma dividida, quem ergueram os alicerces do que chamamos hoje povo. Com a pele da fronteira,
e o coração entre dois tambores.
Mas também ali, na febre que junta carne e mercado, o ressentimento ganhou costuras finas:
beijos sussurrados,
promessas rasgadas ao primeiro clarão da manhã,
heranças que nunca chegariam a tribunal.
Mas também ali, entre beijos escondidos, e promessas cortadas pela cor da pele, nascia o amor proibido –
o que nunca chega à praça,
mas arde nas traseiras da história.
Exalava sobre os serviçais
o rótulo “Tonga” e “Gabão” a ecoar
como sentença: estrangeiros de corpo presente,
imigrantes internos sem porto nem voz.
III. Os Filhos da Terra
Somos os que ficaram, os que resistiram,
os que se moldaram
à curva do tempo com pele de raiz. Vieram os forros, os livres de papel,
em busca de uma cidade onde coubesse a dignidade que o campo lhes negara. Trabalhavam com as mãos e com a astúcia, negociavam com os restos do império,
e ensinavam as crianças a sonhar num idioma que não lhes pertencia.
Entre becos e sobrados, Angolares vigiavam pescarias enquanto forros marcavam território em clubes e tabernas;
a ilha era pequena demais
para tantos degraus imaginados.
O crioulo forro era a resistência sussurrada, a casa de todas as palavras negadas.
E nas casas de sobrado,
a elite ensaiava civilidade,
mas escondia a raiz no quintal,
onde a avó ainda rezava em crioulo
e chorava os filhos que não podiam se casar.
Os serviçais perdiam-se nas esquinas do preconceito, entre um fado hastado e um sotaque estrangeiro, aprendendo cedo que “casa” não se compra,
mesmo pagando com o próprio corpo.
IV. A Roça, o Banco e o Branco
Chegaram os tempos do cacau e do café,
e com eles, o banco e os contratos nunca lidos. As terras, antes partilhadas,
foram cercadas por palavras seladas em Lisboa. Os filhos da terra, agora sem terra,
viam-se escravizados sem correntes,
escritos em débito eterno, rebaixados a forros de fachada.
Na sombra das barcaças,
lontras de papel trocavam-se por sacas de cacau;
o colono vestia luvas brancas,
o Estado assinava de olhos fechados,
e a dívida crescia como liana na mata.
O Estado era um homem ausente, e o colono, um dono sem rosto.
E no meio das roças,
os corpos misturavam-se sem direito, as mulheres eram moeda,
os filhos nasciam sem pai nem herança.
E nos bilhetes de regresso nunca carimbados, “Tonga” e “Gabão” sonhavam com o dia
em que o contrato se transformasse em passaporte,
e a terra em casa partilhada.
V. Sementes de Revolta
Fomos ensinados a negar a nossa voz, a vestir palavras alheias,
a esconder o crioulo no bolso
e ajoelhar diante de padrões impostos. Chamaram-nos preguiçosos,
mas fomos explorados até aos ossos. Deram-nos cadernos,
mas negaram-nos as páginas em branco.
Em Batepá, o cacimbo cheirou a sangue:
fevereiro de cinquenta e três, corpos empilhados, vozes caladas,
a promessa brutal de que o silêncio seria a regra do jogo.
Mas um povo cansado
é um povo que cresce por dentro.
Entre um murro e uma missa, um grito começou a formar-se.
Era Amador, era mulher a lavar a roupa, eram estudantes na Baixa,
um eco ancestral a dizer: basta.
A liberdade não nasceu num dia, foi fermentando no sangue,
como vinho que se recusa virar vinagre.
E nos becos das roças,
os netos de serviçais e forros reaprenderam a erguer bandeiras,
— sem etiquetas, sem muros internos.
VI. Doze de Julho
No país de leve-leve,
o tempo foi sendo adiado, e a esperança, empurrada
para discursos de calendário. E então chegou.
A data sonhada.
A bandeira subiu,
mas a fome não desceu.
Nos salões recém-pintados,
antigos administradores trocaram de crachá;
o povo, na praça, esperava mais do que hinos e retratos.
Independência não deu de comer, mas ensinou a palavra “nosso”. Nosso país. Nossa língua.
Nosso futuro por inventar.
Nascíamos outra vez,
com as mesmas dúvidas de sempre.
Os serviçais continuavam
– já livres de papel,
mas ainda marcados no olhar alheio
como estrangeiros numa casa que era própria.
VII. Somos o Ainda Por Nascer
Então, o que é ser santomense?
É seguir em frente com o passado às costas, trazer no olhar as pegadas de “Tonga” e “Gabão”,
os passos forçados dos que aprenderam a fazer casa nas ilhas.
É sentir que somos sempre o começo e nunca chegamos ao meio.
É amar esta terra mesmo quando ela falha;
é saber que o Estado é frágil
porque a Nação ainda está por coser –
com fios de crioulo forro, angolar, lungwie, o crioulo cabo-verdiano, o suor e memórias exiladas.
Hoje caminhamos entre ruínas e esperanças. Falamos alto, mas ouvimos pouco.
Amamos esta terra,
mas ainda não a reconhecemos inteira.
Continentes de desconfiança
ainda se erguem entre a roça e cidade, entre português de gabinete
e os crioulos de mercado;
entre os forros que esqueceram a senzala
e serviçais cujo lugar foi sempre o limiar.
A discórdia, velha conhecida, ronda como mato-feio sem dono.
Mas a santomensidade não cabe num decreto nem num discurso vazio:
é o sabor da matabala ao fim da tarde, a língua forra que canta no mercado
e consola o peito.
É o batuque que chora o corpo ausente, a festa que sobrevive à pobreza,
o riso que floresce nas cinzas.
A santomensidade é feita de pedaços, de histórias e estórias não contadas,
de línguas que sobrevivem nas cozinhas, de memórias que sangram no betão –
somos Forros, Angolares, Tongas e Gabão livres no papel,
todos unindo este mapa de pertença.
Somos um povo em construção, um Estado em busca de raízes, uma nação que precisa lembrar-se que não se vive só do passado,
mas também de escolha.
Mas há algo que persiste: o querer. Querer ser dono de si.
Querer escrever a própria história.
Querer falar alto com a língua que a mãe ensinou.
Querer dançar, rezar, pensar
sem precisar de pedir licença ao espelho.
E a escolha é esta:
não esquecer. Não calar.
E finalmente, pertencer.
E se a pergunta ainda for: Quem somos nós?
Respondamos de pé, com todas as vozes misturadas:
Somos quem sobreviveu, quem sonha, quem constrói. Somos São Tomé e Príncipe –
e ainda estamos por inteiro por nascer.
b. Bandeira, Utopia e Banho
I. Bandeira e Utopia
Estendemos bandeiras novas sobre telhados coloniais, fábricas fumegavam qual vulcões no quintal.
“Leste ou morte!” urrava a parede descascada,
e, nos cadernos importados de leste, lia-se a trama, aprendíamos que o futuro cabia numa equação planificada. De sol a sol, labutávamos sem descanso,
mas o peito insistia num canto audaz:
toda a pátria cabia na palma da nossa esperança.
Contudo, por detrás do ideal, crescia o eco mudo das conferências de doadores e dos cofres vazios; a promessa internacional tornava-se dívida
que afundava a fé em contas assombradas.
II. Maré de Conspiração
Fomos “sombras rubras” batizadas,
como se o sangue fosse capricho em cartório;
nessa madrugada, o mar ensinou-nos a desconfiar do silêncio que viajava em ondas frias.
E, com a aurora, percebeu-se o rasto
da geopolítica em terras de clientelismo:
redes frias de favores e contratos
a roer o futuro na penumbra do poder.
III. Sussurros nas sombras
Letras anónimas, pasta diplomática, sussurros de hotel, intriga silenciosa. Cada rosto era senha, cada olhar cilada, a praça um tribunal de lida tortuosa.
Falávamos baixo, pois as paredes ouviam, alguns em francês, outros em texano rouco; a pátria cabia, enfim, num dossiê esquecido, e o medo ensinava a geografia do sufoco.
Enquanto as cartas faltavam, chegavam ordens frias de longe, para esvaziar cofres e vontades,
partir verbas ao pé dos imbondeiros adormecidos,
sem nunca perguntar pelos rebanhos e cidades.
IV. Promessa Lavada em Água Envenenada
Quando Berlim ruiu em muralha rachada, ressoou o estilhaço em cada telha abatida; o rublo evaporou-se na penumbra gelada,
o Estado descobriu-se nu num espelho sem moldura.
e a bolsa de estudo converteu-se em promessa perdida.
Abriram-se urnas que ninguém soube guiar, lá dentro rodopiava o chicote fingido; promessa plural que a ilusão veio cavar, votámos sob véu de sonho já rendido.
Decidimos votar, mas o banho era só lavagem de fachada:
banho que vinha em cantinas de pratos vazios;
banho que pagávamos em votos gastos,
lavámos certezas sujas em água envenenada.
Herdámos siglas ocas, sem rumo, sem ideia nem visão, caciques desfilavam em trajes forjados;
o clientelismo coroou-se em falsa procissão,
lavou-se o tejadilho, mas deixou-se a lama no espelho.
V. Migalhas Eleitorais
As siglas floresceram como erva-daninha,
cada pastor trouxe rebanho de alma mesquinha;
o gado perdeu o pasto, a terra, o seu manto, tivemos tudo – menos a banana e o peixe.
O voto, moeda frágil e de fuga tardia,
o sonho converteu-se em mercadoria e agonia;
na aurora seguinte ao banho eleitoral,
contávamos migalhas de pão contra o discurso oficial.
Promessas de ONG vinham e iam na vã esperança, subsídios navegavam, mas deixavam ânsia sem pujança, apenas rastos de dependência;
lava-vidas vendemos em gotas de fé mal lavada,
mas acordávamos sujos de silêncios comprados na estrada.
VI. Abecedário de Banho
Meio século depois, o hino ecoa rouco, mas ainda atiça brasas no peito sedento. Entre ruínas de radar e telhados de zinco,
crianças declamam o abecedário da esperança.
Avançamos, mesmo mancos, porque nenhum mar rouba à ilha
o direito de reinventar o próprio nome.
Mas o banho coletivo sobra em água turva,
carregamos o peso das dívidas antigas, o esqueleto das clientelas partidárias,
a ferida aberta do ajustamento estrutural que nos ensinou a contabilizar miséria.
E, no lugar onde a água cai, soamos o clarim do voto gasto: banho que promete limpeza
mas retorna em lama a escorrer pelas mãos.
