Com Um Olho Só Vejo Mais
Eu tinha nove anos quando perdi o meu olho. Estava a brincar com o meu irmão — ríamos, corríamos, éramos só duas crianças a inventar o mundo. Foi um acidente. Um segundo apenas, e tudo mudou. A dor veio logo. O medo também. Mas o que mais doeu não veio naquele momento — veio depois.
Durante muito tempo, senti-me perdida.
Não sabia quem era dentro daquele novo corpo, com aquele novo olhar. Achei que não havia mais espaço para mim neste mundo. Fui alvo de bullying, de olhares que cortavam mais do que palavras, e também de palavras que feriam mais do que silêncios. Comecei a esconder-me — no medo, na vergonha, na vontade de passar despercebida. Passei a acreditar que eu era “menos”. Que estava quebrada.
Demorei a perceber que não era eu que estava errada — era o mundo que ainda não sabia como olhar para mim.
Aos poucos, fui reaprendendo a viver. A olhar para mim com mais ternura. Os meus irmãos foram essenciais nessa descoberta. Sempre estiveram lá. Sempre prontos para me encorajar, para me lembrar — mesmo quando eu esquecia — que eu era forte, que eu era capaz. Nunca me deixaram esquecer quem eu era de verdade.
E sei que essa coragem que me foi resgatando por dentro não veio do nada. Veio da minha mãe. Daquela força silenciosa, mas firme, que corre nas veias de todas as mulheres da minha família. Herdamos dela uma maneira de não desistir, mesmo quando tudo parece nos empurrar para o chão.
Reaprendi a andar. A mover-me com firmeza, mesmo com um campo de visão mais estreito — porque a minha coragem sempre foi larga. Descobri que a visão mais verdadeira não está nos olhos. Está no que sentimos. No que decidimos ver. No que recusamos apagar em nós mesmas.
Hoje, vejo melhor do que nunca.
Vejo o pôr do sol na Praia PM e ele toca-me como se tivesse sido pintado só para mim.
Vejo as minhas filhas — fortes, lindas, curiosas — e vejo nelas tudo aquilo que me fez continuar.
Vejo o carinho do meu marido, a confiança dos meus alunos, o orgulho nos olhos da minha mãe e dos meus irmãos.
E vejo a mulher que me tornei. Não apesar do que perdi — mas por causa daquilo que sobrevivi.
Se me perguntarem se sinto falta do que perdi, talvez eu diga que sim — um pouco. Mas o que encontrei em mim vale muito mais.
Com um olho só, eu vejo mais.
Porque agora, vejo inteira.
