50 Anos // 50 Vozes

A República, a Tóxico-(in)dependente

Alcídio Montoia
No 50º aniversário da sua tóxico-(in)dependência, a República vai lavar-se, pentear-se, pôr umas longas e coloridas tissagens em “tranças afro”, aparar as unhas (mixidaji sa suzu d’inhé, non sebê!) ou, simplesmente, cobri-las com longas e exuberantes unhas de gel e nem se esqueceu de ir ao dentista tratar (ou disfarçar) das cáries que teimam em dar aquele aspeto andrajoso, decrépito, de janada sem alma, à sua cara, que já foi linda… de morrer! Vai aos fardos escolher algo parecido com um quimone vermelho, saia (godé!) verde, um florido lenço amarelo para a cabeça, um xaile (xeli) e par de sapatos pretos para esconder os pés gretados e consumidos pelo bichô (matacanha) e compor o ramalhete. Milagres da cosmética. 

Ao ritmo estridente e descompassado de bula-uê, com variações em dó-menor para puíta, será cantado “parabéns a você, nesta data querida…”, seguido de infindáveis salvas de palmas e votos de longa e renovada vida para a dita República. Ela, os seus progenitores e mentores acreditam pia e impiedosamente que podem voltar a ter aquela inesquecível e orgásmica primeira vez, aquela primeira, irrepetível e libertadora experiência, de que não se cansam de contar e de recordar, tida naquela quente tarde debaixo de uma coleira no Bobô-Forro. 

A sua já algo numerosa, sempre muito esperançosa e crescente prole, mesmo sabendo que não se deve dar muito crédito a promessas de redenção nem a juras de internamento para rehab (assim que puder) de um “agarrado”; essa prole, grande parte dela gerada já sob o efeito de muitas linhas snifadas da branca , doses cavalares da castanha injetada, um sem número de anfetaminas ingeridas e com ADN corrompido pelo tóxico; não se cansa de encorajá-la na delirante e fantasiosa narrativa de feitos históricos, de luta e de resistência em relações amorosas tóxicas, abusivas e de (sobretudo) estupro quando ainda não era República, mas sim uma simples (ou simplória) Capitania, Colónia ou formosa Província, quando se limitava a umas passas de liamba e bebedeiras em dias de festa (o bichinho do tóxico já lá estava!). 

Os filhotes, já poucos a conheceram antes de ser República, brindam-lhe com piedosas e inconsequentes declarações de amor eterno e incondicional, manifestando-lhe orgulho, que (já) não sentem, mas a que estão obrigados, e a inquebrantável fé na sua reabilitação, mesmo conhecendo os maus resultados dos inúmeros internamentos em clínicas especializadas, das angustiantes consequências de dolorosas ressacas e do património delapidado para sustentar o vício.

Foram-se os anéis, mas ficaram mãos e dedos para receber, enquanto deambula pelos parques de estacionamento fazendo de conta que presta algum serviço útil, umas moedas por piedade ou (o mais provável) por fundados receios do utente de ver a sua viatura vandalizada pela janada. O seu esquálido e escanzelado corpo, já nem serve de mercadoria na indústria da vida fácil, mas ainda restam os rins, ou qualquer outro órgão “dispensável”, que poderão ser vendidos por tuta-e-meia para continuar a alimentar a adição, esse Elefante Branco, sim, essa coisa valiosa da qual o seu proprietário não se pode livrar e cujo custo (em especial o de manutenção) é desproporcional à sua utilidade ou valor. Como resumiu Rufas Santo, muito bem (diga-se!) mas para situação diversa, é a “prendinha que entala o presenteado”. Ainda acredita que tudo ficará resolvido quando encontrar o tal tesouro enterrado no quintal, onde já fez umas quantas infrutíferas escavadelas. 

A República já vai tendo pensamentos suicidas, anseia por uma “overdose” redentora, e, enquanto aguarda por essa derradeira experiência, que, para mal dos seus pecados, jamais chegará, até já se vai automutilando e autoflagelando. A prole, fingindo-se horrorizada, indignada, em pranto, em negação, em denegação; quer fazer crer aos incautos que não aceita isso e vai debitando inócuas mantras e ladainhas de autoajuda: Não, não és assim mãe, não és!!! És linda!!! Não deixes que te digam o contrário!!! 

Assim segue a dita República, que insiste em pensar que ainda é (muito) jovem e formosa, que ainda nem começou a viver, esquecendo-se ela que, na verdade, não comemora 50, mas sim 555 voltinhas ao Sol! 

Esta República Tóxico(in)dependente é no que se transformou a minha terra, mas ela não é a minha terra-mãe. Mãe há só uma, não se nega, respeita-se, aceita-se! A República, impingem-nos, é mãe e, acrescentam, a Esperança é sua irmã, nossa tia, portanto. Rematam que, sendo mais nova, a tia Esperança, também ela uma “agarrada”, é a última a morrer. Fomos educados, ensinados, instruídos nesse dogma, a que quase ninguém se quer (ou se atreve) libertar. Libertei-me dele… acho. A mãe República e a tia Esperança que se danem! A tia não morre, nem a gente almoça! Que sejam ambas muito felizes no caminho que escolheram seguir. Vou preferindo a chata da Madrasta Má. Tem os seus vícios (não são poucos!), mas não lhe devo a obrigação de amor incondicional nem de ter orgulho nela. Desculpem-me se estraguei a (vossa) festa, a (vossa) orgia de sexo, drogas, cacharamba e bula-uê. 

Quando a verdade é feia, a mentira é maravilhosa. Prefiro a cruel verdade à piedosa mentira.