50 Anos // 50 Vozes

A Juventude Fraturada: Alienação, Sonho Branco e o Espelho Partido da Independência

Ivanick Lopandza

Em São Tomé e Príncipe, cinquenta anos após a independência proclamada com solenidade e tambores, o que se consolidou não foi uma soberania, foi um mal-estar. Um desconforto existencial que se disfarça de modernidade e se esconde em selfies, músicas virais e sotaques importados. O corpo negro santomense, que ontem carregava sacos de cacau sob o chicote, hoje carrega sonhos branqueados de fuga. E o jovem, herdeiro de um silêncio colonial nunca tratado, aprendeu a desejar tudo, exceto a si mesmo.

Apresento-vos, com alguma ironia e profunda tristeza, a Geração Santola: hesitante, ansiosa, eternamente em trânsito, sempre a preparar as malas, mesmo quando ainda nem tem passaporte. São o exemplo perfeito do que Fanon chamaria de “neurose do colonizado”. O território foi libertado, mas o imaginário continua em cativeiro. Trocámos a bandeira, mas mantivemos o espelho. E é nele que a juventude se olha e se odeia discretamente, com um sorriso no rosto e um filtro de Paris.

O jovem santomense não quer ser ele mesmo. Quer ser qualquer coisa, desde que não seja daqui. Um sotaque do Porto, um ritmo de Luanda, um look de Londres e qualquer identidade serve, desde que caiba no feed. O pequeno colono interno, bem nutrido, cochicha: “Parte.” E ele parte. Parte da ilha, parte do corpo, parte de si. A alienação já não vem dos manuais, ela vem do dia a dia: ela é a vergonha do crioulo malfalado, o nojo da pele escura, o desprezo do orgânico. A verdadeira fronteira nunca foi o oceano, foi sempre o espelho.

Como dizia Fanon, “o colonizado é um ser em fuga permanente.” Hoje, essa fuga veste roupa de marca e fala inglês com sotaque globalizado. É uma fuga digital, espiritual, estética, política. Abriram-se as portas da Europa, e os nossos corpos, ansiosos, pularam em massa como quem escapa de um incêndio, sem saber se lá fora há ar para respirar.

E aqui, do topo do meu privilégio, por ainda estar, por ainda ser, não escrevo para julgar os que foram. Escrevo para compreender o que perdemos. Para perguntar o que ficou. O que significa estar aqui e não desejar partir? O que significa resistir à tentação de ser outro?

Hoje, o novo colonizador entende de métricas. O algoritmo decide quem vive, quem desaparece, quem vale a pena. E quem não viraliza, evapora, simples assim. Já não se usa grilhões, mas sim Wi-Fi. Já não se censura com polícia, mas com desprezo. E já não se resiste com machete, mas com memória. Povos como o nosso do sul global, simplesmente desaparecem e sequer merecem ser noticiados pelos médias internacionais com as suas agendas.

A juventude que deveria ser a vanguarda da descolonização digital com pensamento, com ação, com imaginação tornou-se fã-clube de influenciadores. O sonho deixou de ser justiça; virou visibilidade. A militância deixou de ser rua; virou trend. E o futuro deixou de ser luta; virou fuga.

Mas como lembrava Fanon, “toda geração deve descobrir a sua missão.” E a nossa juventude precisa encontrá-la antes que o último avião de baixo custo parta. Precisa resgatar a si mesma do vazio. Recusar o papel de subalterno desejoso de migalhas e assumir-se como centro de uma outra narrativa, onde o mundo não gira em torno da Europa ou dos tigres asiáticos, mas pulsa desde a ilha.

Descolonizar não é apenas mudar nomes de ruas ou montar painéis com bandeiras africanas. É reconfigurar o que se sente quando se ouve a própria voz. É tornar-se possível. É amar o crioulo, a pele, o ritmo, o erro, o riso. É reconhecer o sotaque santomense como potência. É reconstruir o corpo, o desejo, o pensamento e não para caber no mundo do outro, mas para ser mundo.

Cinco décadas depois, continuamos à procura de uma identidade dada, um carimbo existencial. Quase portugueses, quase africanos. Suspensos no meio do Atlântico, com um olho no continente que não nos reconhece, e outro na metrópole que nos abandonou. Talvez agora, no cinquentenário, a tarefa não seja festejar, mas recomeçar. Ser o que nunca nos deixaram ser: negros, ilhéus, vivos e inteiros.