MENSAGEM
Mangualde, 12 de julho de 1975
OLINDA BEJA in “Bô Tendê?” – 1992 – CMAEdit.
Esta carta é para ti África
sim, para ti
porque tu és a minha verdadeira Mãe
a Mãe que eu nunca tive mas amei.
Por isso te escrevo
porque a certeza que ainda te lembras de mim
Mãe-África
nasci na linha do Equador na ilha de nome santo
na rainha das ilhas
foi em fevereiro; os coqueiros gemiam ao fundo da roça
e as palmeiras agitavam os seus longos braços ao vento
cresci
aprendi a conhecer os teus segredos
e corria… ai Mãe-África lembras-te como eu corria?
Como eu brincava, como eu pulava e me escondia
atrás dos cacaueiros?!
Depois… ai Mãe-África… depois mandaram-me num barco
muito grande (o Quanza parece-me)
mandaram-me para a Metrópole (chamava-se assim naquele tempo)
e eu vim
e cá fiquei
trambolhão dali mais outro de além
enfim… lá me criei
fui crescendo mas fui crescendo também por dentro
(compreendes Mãe-África?)
Estudei e li, li muito, li coisas que não se podiam ler
coisas proibidas
mas só assim é que soube o quanto sofrias
por ver os teus filhos humilhados
roubados
troçados
destruídos
mas também soube o quanto te orgulhavas
ao veres a coragem dos que não se rendiam
nem se entregavam
e ficavam prisioneiros
mas não se rendiam
e podes crer Mãe-África que nesses momentos eu tive
vergonha, muita vergonha por não estar nas tuas fileiras
e dizer: PRESENTE!
Ai se tu soubesses o que eu sofri!
E quando ouvia dizer “os terroristas atacam de novo”
Os terroristas imagina tu eram os teus filhos, os meus irmãos!
Os que sofreram na carne e no sangue quinhentos anos
de escravidão
os que queriam unicamente viver em paz e dignidade
tu sabes lá o que eu ouvi, o que eu sofri…
e o que eu tive de fingir!
Senti-me inútil, destroçada, acobardada
porque eu era tua filha
e uma filha nunca abandona a Mãe pois não África?
Mas a vida sabes… a minha vida era aqui deste lado do mar
e fiquei
sentada
à espera…
Por fim foste recompensada Mãe-África!
Depois do sofrimento a vitória!
Vais ver finalmente a paz e a justiça nessa terra
que é tua
que é minha
que é de todos nós
brancos negros ou mestiços
desde que todos estejam dispostos a cumprir
com o dever e com o respeito
que todo o ser humano merece!
Vais ver finalmente Mãe-África as tuas terras e as tuas fábricas
nas mãos de quem as trabalha
e de quem as ama
e os teus filhos deixarão de ser escravos
para serem homens livres
Para te dizer a verdade Mãe-África estou a chorar
choro de alegria por ti e pelos teus filhos, os meus irmãos
choro por saber que o sacrifício foi recompensado
choro porque aprendi contigo uma bela lição
Eu amo-te Mãe-África! Podes contar comigo
porque mesmo longe, muito longe, deste lado do mar
ou onde quer que eu esteja
sei que serei sempre tua filha
e tu serás sempre minha Mãe!
(Era isto que eu queria dizer-te África!)
