50 Anos // 50 Vozes

DISPARIDADE, OBRIGATORIEDADE, BARBARIDADE e OPORTUNIDADE

Izidro Sousa
O que é que um santomense que viveu toda a vida adulta fora do país pode acrescentar sobre os 50 anos da nossa independência?

Ao contrário do que me é habitual, em 2019 aceitei participar numa mesa-redonda online sobre o futuro de São Tomé e Príncipe com alguns ilustres compatriotas. Durante a preparação, ao aprofundar-me nos indicadores económicos do país e de outros pequenos estados insulares congéneres, saltou-me à vista que o PIB per capita – simplificando, a média de riqueza gerada por cada cidadão – de Cabo Verde em 2018 tinha sido mais do que o dobro do de São Tomé e Príncipe no mesmo ano. Intrigado, projetei a tendência histórica (2001–2018) num gráfico e, para a minha surpresa, só em 2036 alcançaríamos o valor cabo-verdiano de 2018.

Não! Nunca! Jamais! Mais palavras houvesse (ou soubesse), mais a minha incredulidade teria sido expressa. Jamais poderia imaginar que estivéssemos 18 anos atrás de Cabo Verde.
Que DISPARIDADE! Ainda assim, um eufemismo.

A tristeza, o desconsolo e a estupefação alimentaram a descrença de um santomense irracionalmente relutante à sua descrença racional sobre a sua terra. Confuso, caro leitor? Também eu, mas explico: há algo em mim que, irracionalmente ou emocionalmente, resiste em deixar de acreditar no futuro de São Tomé e Príncipe. Porém, este meu eu irracional (eu emocional) tem vindo frequentemente a conflitar com o meu eu racional, à medida que me têm sido revelados factos relacionados com o nosso modus vivendi e modus operandi.

Tal como a bonança após a tempestade, o choque deu lugar à reflexão de que não poderíamos continuar a ser iguais ao que fomos, somos e temos vindo a ser. Mais do que questionar as opções do passado – económicas, políticas, sociais etc. – urgia pensar em soluções verdadeiramente disruptivas para estreitar a tal disparidade no futuro. Não nos poderíamos dar ao luxo de sermos apenas bons. A OBRIGATORIEDADE de sermos muito bons impunha-se. No fundo, precisávamos de ser um povo diferente, sob pena de nenhum porto de águas profundas, economia azul e outros projetos-bandeira de STP permitir a desejada convergência com países com os quais nos deveríamos comparar.

Ora, mudar um povo é um tema sensível, naturalmente mitigado se formos membros desse mesmo povo.

A dona Joana, da ilha do Príncipe, e o senhor Izidro, da ilha de São Tomé, fizeram-me santomense em toda a dimensão da nossa geografia. A Escola Primária de Bom-Bom, a Escola Preparatória Patrice Lumumba e o Liceu Nacional, entre outros, ajudaram a moldar a minha santomensidade. Creio que estamos de acordo de que estou autorizado a falar em nosso nome. Todavia, o mundo, a partir de 1990, deu-me outras formas de ser, de estar, de ver e de sentir. Algumas das minhas verdades absolutas tornaram-se dúvidas, numa primeira fase, e depois cruas mentiras. Outras mantêm-se estoicamente cristalizadas como verdades eternas.

O que é que um santomense que viveu toda a vida adulta fora do país pode acrescentar sobre os 50 anos da nossa independência?

Muito pouco, caros e caras compatriotas. Talvez apenas um olhar de quem não se entranhou.
Como disse Fernando Pessoa, “primeiro estranha-se e depois entranha-se”, certo? Talvez o mundo me tivesse ajudado a estranhar alguns “males” da minha terra. Decerto, porque não sou melhor do que muitos de quem sou crítico, se vivesse em STP teria igualmente entranhado o mais estranhável dos hábitos e comportamentos.

Como referi, precisamos de um povo diferente, um novo povo que pudesse fazer o reset dos valores coletivos da nossa nação, constituindo desta forma os alicerces de uma nova forma de viver o país, viver as suas opções de desenvolvimento e o futuro que todos almejamos e merecemos.
Um novo povo…

• Que confira os mesmos direitos e oportunidades a mulheres e homens.
• Que valorize as pessoas não pela quantidade de cônjuges ou filhos que têm, mas pelo que acrescentam ao bem comum, ao nosso país e às nossas gentes.
• Que condene o aproveitamento de jovens mulheres vulneráveis e que crie condições para que ser a “catorzinha” de alguém não seja a sua única opção de futuro.
• Que tenha decoro e integridade na atuação em todos os setores de atividade, sem subornos, nepotismo, corrupção, clientelismo, compadrio e afins.
• Que prime os seus padrões pela excelência, começando pela simples e tão básica pontualidade. Sim, chegar a horas. Coisa tão difícil!
• Que faça eleições livres e justas, sem subornos eleitorais – o conhecido “banho”.
• Que os detentores do poder soberano se convertam no fiador da nossa estabilidade.
• Que a justiça se fundamente na equidade e na neutralidade.
Etc. etc.

A utopia que parece assombrar estes desejos não deve, porém, impedir uma reflexão profunda sobre o que somos e no que nos temos tornado. É urgente perceber que costumes e hábitos enraizados na nossa cultura são catalisadores ou castradores do desenvolvimento económico e social.

Mais 50 anos com estes padrões comportamentais seriam uma BARBARIDADE. Mas a OPORTUNIDADE está diante de nós; a cultura constrói-se todos os dias. Resta decidir se a vamos abraçar.