50 Anos // 50 Vozes

O Patriota

Andreia Patrício

Hoje, com sentimentos contraditórios,
A mágoa tornou-se memória saudosa do opressor,
O patriota de outrora afinal só queria ser “doutor”.
O filho da casa humilde,
Do trabalho árduo,
Só queria sair dali,
Escapar da roça e do machim.
Queria uma glória sem mérito,
Exibir todo o seu esplendor,
Porque só isso lhe importa,
Só isso sempre lhe importou,
E agora sabes,
Agora vês.

O amor à pátria de há 50 anos — a independência com a promessa de um futuro próspero — hoje, resume-se a uma educação duvidosa,
Que assistimos ruir como os edifícios abandonados pelo colono.
O som do trabalho no mato,
do Homem perturbando a vegetação,
transformou-se na buzina das motos,
Com pressa à destino nenhum,
Desenfreadas no asfalto esburacado,
Com um “independente” a guiar a máquina,
Sem planos,
Descontrolado,
Com a certeza do hoje
E o abstrato do amanhã.

Esta é a herança que o patriota nos deixou,
Homens capazes de amar mais as “boquitas” do que os próprios filhos,
Mulheres de sorte que com um marido ganham outras inúmeras “irmãs”,
Produtores em massa de crianças marginalizadas:
Os futuros homens do amanhã.

Homens de instinto pouco racional,
independente de classe ou estatuto,
São sempre estrelas em romances com coadjuvantes de aparência virginal,
Graças a um apetite voraz, corrompem a semente, comprometendo o surgimento de qualquer fruto,
E assim, sem perceber, prejudicando a sua própria luta.

O patriota, de oprimido tornou-se o opressor,
Embriagado na sua vaidade,
E desprovido de identidade,
Hoje é a caricatura de quem temia.

Afinal, seremos nós, os patriotas, melhores do que o opressor ?
O opressor — bicho de sete cabeças, cruel e temido — foi capaz de amar a sua pátria,
O patriota não.