50 Anos // 50 Vozes

50 Anos de Perdão

Edite Ten Jua
Qualquer reflexão feita por um sãotomense, num mês de Julho não consegue contornar o assunto “Independência”.  Mas desta vez, a mesma reflexão tem um gosto diferente, porque carrega o alarme de que 2025 é o ano do Jubileu da maioria das independências dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP).   E aqui começa o paradoxo, porque no Jubileu, deveríamos jubilar, o que dicionaricamente falando, significa demonstrar alegria e júbilo, festejar e até regozijar-se.
 
Contudo, este ano ouço mais cochichos, vozes internas e externas, e todas contraditórias. Umas afirmam que nada foi feito, outras que algo foi feito e até algumas afirmam que muito foi feito. Neste emaranhado de sentimentos e cogitações, é simplesmente justo respeitar a perspetiva de cada qual. E embora saibamos que as três afirmações conterão as suas verdades, é preciso que os PALOP se reconciliem com as suas independências. Desde logo, porque não existem borrachas para apagar o passado, nem botox para rejuvenescer o tempo, pelo que já não dá para reverter na íntegra o que foi feito de 1975 a 2025. E ironicamente essa constatação poderá sugerir um aroma de impunidade, porque conhecemos os atores e podemos refletir em que circunstâncias atuaram. 
 
Neste caminho de 50 anos, com trilhos empoeirados e outros de alcatrão, igualmente temos de ponderar o quê que aceitamos e porquê que aceitamos. Porque se só governa quem a maioria elege, decorre que o poder é consequência direta do exercício feito por cada cidadão no sigilo de uma cabine de voto; logo, cada um de nós é um ator ativo desse exercício conjunto de cidadania. Mas, será que temos exercido a nossa auto-responsabilidade? Pois, que teimamos em não encontrar responsáveis, falamos, mas não atuamos.  É como se soubéssemos que sem perdão não se avança e sem auto-perdão a alma seca. E quiçá se entenda, porque o almejado bem maior foi alcançado: a independência, traduzida no hino que quando ouvimos a alma estremece, na bandeira que quando tremula aquece a alma e que sintetizam a liberdade. Estas são, conquistas preciosas demais para se pôr em causa, mas já não são suficientes, porquanto que há ainda muito caminho a percorrer.
 
É certo que já não somos analfabetos nem serviçais, mas a pobreza persiste, aspirações se desvanecem e a energia esmorece numa África que deveria estar vívida para acompanhar a rápida e profunda mudança global, sem perder o legado do que foi ser descolonizado, e recipiente vivo da passagem do testemunho da liberdade. O ano do Jubileu, nos atribui a certidão de uma maioridade inquestionável, em que já não há mais desculpas. Antes nos sentencia a buscar a restauração do contrato social, da credibilidade política e da inclusão, em que todos são intimados a contribuir. 
 
Temos de rapidamente virar páginas e reescrever uma nova narrativa democrática, visando o progresso económico. Porque sem pão, sem saúde de qualidade, sem educação de referência e prosperidade, a liberdade está em causa. Em 2025, todos temos sim de exercitar 50 anos de Perdão, corrigir as injustiças ocorridas e reconhecer o que foi positivo. Só assim poderemos alcançar justiça, forjar consenso naquilo que é fundamental e desenvolver uma acelerada capacidade de reinvenção. Devemos isso à nossa Terra Mãe. E por isso, e tal como é dito na nossa ilha de São Tomé e Príncipe, num dia de Bocado*: Eu peço perdão!
 
 
*Bocado – “Tradição religiosa de São Tomé e Príncipe, comemorada na quarta-feira de cinzas, em que os católicos fazem a concentração familiar para compartilhar pratos típicos, reforçando valores de solidariedade e pertencimento. O nome “bocado” representa esse gesto de generosidade, marcado pelo ato de oferecer pequenas porções de comida, muitas vezes entregues na mão pelos mais velhos da família, como avós.”