O “Destino” como Vocação…
O “Destino” como Vocação para a Configuração do Futuro: 50 anos da Independência Nacional
Lembro-me que, quando tinha os meus 14 ou 15 anos e frequentava o liceu, em S.Tomé, residindo na Quinta de Santo António, um colega meu escreveu na parede de uma das camaratas, no espaço onde tinha a sua cama, em letras gigantes, denunciador do propósito pessoal e intemporal pretendido com o referido ato, como os decretos de césares gravados em pedra, a seguinte frase: “Um Homem pode lutar contra o outro mas não pode lutar contra o seu destino”.
Se na referida expressão ou frase, trocássemos a palavra “Homem” por “País” teríamos a metáfora perfeita, na perspectiva do meu colega, para a caracterização da nossa situação socioeconómica actual, passados 50 anos da independência do país, denunciador do nosso “destino”, como algo pré-determinado e inevitável, comparativamente com outros povos ou sociedades.
Esta ideia do meu colega, espelhada naquela frase, não sendo algo isolado, denuncia a influência de manifestação de crenças, com suporte em traços culturais ancestrais, de que ainda não libertamos e é usual, por exemplo, em letras de músicas de diversos artistas ou conjuntos musicais, tendo como referência o desenvolvimento pessoal diferenciado, entre indivíduos, fruto do referido “destino”.
E, ainda hoje, é comum muitas pessoas afirmarem, com total convicção, que, por exemplo, o atraso do país, nestes últimos 50 anos, está relacionado com o “dia aziago” da consagração da independência nacional sendo que, para as mesmas, tal explica o nosso “destino” como país.
Este modus faciendi, comportando o “destino”, como modelo antecipadamente ordenado de eventos que se vão realizando, ao longo dos tempos, de forma inevitável, e que estão ligados, direta ou indirectamente, a uma ordem cósmica, social ou de outra natureza, caracterizadora de algumas sociedades tradicionais, ainda tem, infelizmente, uma grande carga, do ponto de vista simbólico ou real, na nossa terra, conferindo um alto grau de determinação e configurabilidade, no contexto decisório, aos nossos múltiplos futuros, desde a instauração da independência nacional em 1975.
Durante 50 anos, não fomos capazes de libertar-nos do “destino”, consciente ou inconscientemente, como padrão inevitável de manifestação de acontecimentos, com carácter transformador, para o bem ou para o mal, tendo-o como suporte para todas as nossas actividades quotidianas, incluindo aquelas relacionadas com a acção e decisão política.
Por diversas razões, nomeadamente o facto de vivermos num contexto mundial acelerado e interdependente que comporta processos de inovação de múltiplas ordens e, partilhando relações, nalguns casos, com sociedades onde se constata intensa transformação social, fomos, ao contrário daquilo que seria desejável, claudicando, ao longo destes 50 anos, tratando o “futuro”, quase sempre, com desprezo, sentados tranquilamente na tábua do “destino”, consciente ou inconscientemente, como instrumento preferencial para atos de predição do mesmo no âmbito de tomada de decisões.
Foi isto que fizemos, logo após a independência nacional e, posteriormente, após o processo de democratização do país.
Tratamos, quase sempre, o “futuro” como simples continuação do presente ou; em alternativa, como se o mesmo emergisse em contexto de total negação relativamente ao passado vivenciado e/ou em relação a este mesmo presente, transformando-o, por razões diversas, consciente ou inconscientemente, numa espécie de “destino” inevitável, caracterizador da mensagem gravada pelo meu amigo na parede de uma das camaratas da Quinta de Santo António.
O resultado deste procedimento, após 50 anos da nossa independência, é que, tirando muitas poucas áreas de organização da nossa vida colectiva, estamos no mesmo sitio, ou, na maior parte dos casos, regredimos, após 12 Julho de 1975, tendo em conta, até, que, decorrente da aceleração, de ponto de vista social, constatado nalgumas sociedades modernas, mencionado anteriormente, as referências comparativas são muito desfavoráveis para nós, contribuindo, com tal, para comprimir este mesmo presente fazendo com que o mesmo dure muito menos tempo de ponto de vista relativo.
Tal facto, por si só, é demonstrativo de que devemos, ao contrário daquilo que continuamos a fazer alegremente deitados na cama do “destino”, valorizar o futuro tratando-o com muito menos improvisação.
No entanto, o pior que poderíamos fazer, neste momento, passados 50 anos da independência, é andar a vasculhar, em tom acusatório ou persecutório, os eventuais responsáveis pelo caminho que fizemos, como comunidade, até então, tendo em conta que a noção de responsabilidade, neste âmbito, tem uma interpretação multidimensional, compaginável com aquilo que todos nós, individual ou colectivamente, deveríamos ou poderíamos fazer, como políticos ou simples cidadãos, estando ao nosso alcance, para a configuração dos acontecimentos do futuro após a independência nacional e a democratização do país.
Esta eventual responsabilidade, individual e/ou colectiva, a partir deste momento, não deve estar ancorada no passado, tendo o “destino” como vocação, mas, sim, no grau de resolução e configurabilidade das acções do futuro, suportado por um verdadeiro projecto transformador (sim, projecto não no sentido burocrático do termo) que comporte o plano individual e das organizações (políticas e institucionais) do país não tendo o “futuro” como uma simples continuação do presente ou, como referi anteriormente, como se o mesmo emergisse em contexto de total negação relativamente ao passado vivenciado e/ou em relação a este mesmo presente.
Ou seja, devemos criar condições, para que os próximos 50 anos não sejam idênticos aos anteriores 50, valorizando o conceito de responsabilidade, fundamentalmente, como instrumento de configuração das acções do futuro para que este não continue a ser idealizado como “destino” pré-determinado e inevitável.
A primeira coisa que me parece urgente e desejável que devemos valorizar, no propósito para a emergência deste projecto transformador, deveria ser a criação de condições que contribuíssem para o reforço da institucionalização do nosso sistema partidário comportando, neste momento, partidos políticos com défice de organização, estrutura e procedimentos instáveis, incentivador do personalismo, da defesa de interesses pessoais e/ou de grupos em detrimento do colectivo e de outras inconformidades que, mais tarde ou mais cedo, poderão contribuir para a ruptura do próprio regime democrático.
Daniel Innerarity, provavelmente um dos maiores filósofos e pensadores da contemporaneidade, citando Hannah Arend, num dos seus livros recentes, alerta-nos que «… os seres humanos ligados por um projecto concertado têm superioridade em relação àqueles que nenhuma promessa liga e que carecem de intenção…».
Não foi isto que fizemos nos últimos 50 anos! Temos de combater o “destino” enquanto vocação, consciente ou inconscientemente, para a construção do nosso “futuro”.
