São Tomé e Príncipe – 50 anos “in debt”, “in depth” e “in-dependente”
1
Colónia não; País, sim
“Viva (*)!, govéno non xigá zá!”
Começava sempre assim, a avó Petiza
os seus contos sobre reis e realezas
no meio da fumaça e das cinzas
da sua maldita e digna pobreza.
As histórias envolviam tristezas
mas as palavras eram ditas com leveza
forjando uma dissimulada beleza
que nos agradava a todos, com certeza.
Hoje, apesar de toda a minha fraqueza
brado, aqui, sem nenhuma gentileza
o sentimento que habita em mim
porque a luta ainda não chegou ao fim
Vamos falar do país (in)dependente
onde quase tudo está pendente
exceto a corrida ao cargo de presidente;
este, que não passará de mais um pedinte
Vamos falar do hino e do hastear da bandeira
mas também do vigor do tecido sobre a pedra;
da falta de água na torneira,
da brigada governamental pela estrada
e das eleições que nunca se ganha;
das ondas das praias onde se banha
os verdadeiros banhos de antigamente
que nos deixavam limpos, o corpo e a mente,
e não os de hoje, que deixam ainda mais sujos
aqueles que dependem de outros “gajos “.
Hoje, o que não suporto e mais lamento
é, ironicamente, o (ridículo) parlamento
que apesar de ser feito de cimento,
corre lama por todo o pavimento.
Vamos falar da nossa medíocre prece
para os males que o país padece,
da fé que nos carece
e do sentimento que empobrece
porque ainda há gente que merece
2
País, não; Terra, sim!
Vamos, então, falar da nossa terra
da sua beleza, da sua história
e das coisas lindas da nossa era;
dos versos, da prosa, e da poesia…
da marginal, da avenida sem vida…
do Céu, do ar e de toda a maresia;
das meninas (dos senhores) e do SIDA
Enfim, falemos de tudo sem hipocrisia
porque nem tudo é maravilha
É dessa terra que hoje vamos falar,
não somente dos seus adornos
mas de todo resto dentro do contorno;
do pernicioso que não perde o sono,
e do preguiçoso que dela quer ser dono
Colono!
Vamos falar da confiança que morre
e da água que não corre…
A água do rio que rasga a cidade
não é nenhuma novidade
Os chafarizes nas localidades
raios!, é um dever, e não caridade
E este povo que é sofredor de verdade,
sem nenhuma sobriedade,
aplaude os políticos sem capacidade
de oferecer justiça à sociedade;
os mesmos que o castigam sem piedade
Cobardes!
Não se emendam apesar da idade
Seus cargos não passam de vaidade
Fazem maldade em toda localidade
Cometem crimes e invocam a impunidade
Enganam e disparam à toa, que é uma desgraça
Mas ainda há gente boa, e há esperança
3
Terra, não; Ilhas, sim!
Vamos falar das nossas Ilhas,
dos cantos dos pássaros em cada canto,
dos pratos e sabores para todos os gostos;
dos tachos de comida vazios
e d’outros “tachos” cheios de vadios
que nunca pagam impostos
e almejam altos postos.
O povo clama pela nova revolução
porque o João da oposição só come pão
graças à família na emigração
ou a parente que é ladrão;
Sim!, ladrão visível que veste fato
e é incrível no seu furtivo ato!
Enquanto ia o Leonel atrás do mel
o Miguel fingia um ar de fiel
mas a esperança residia apenas no Manel
por se ter dado bem com a caneta e o papel
No final, no paladar, ficou somente o fel
e todo o ideal almejado se esvaeceu.
Mas, então, o que nos aconteceu?
O ministro, enlouqueceu?
O presidente, adormeceu?
Não! O povo, de si, se esqueceu!
4
Ilhas, não; Arquipélago, sim!
Vamos falar do país e da terra fértil
onde abundam somente capins
e não florescem rosas, tulipas nem jasmins
devido a letargia deste povo volátil
Vamos falar da terra rochosa e abandonada
que serve de pastos para toda a manada
Vamos deixar a cidade e subir ao monte
e plantar o cacau, o café e o coconote
Vamos nos esquecer da vinha e do cedro
e voltar ao mar com uma prece a São Pedro
porque este país está agora entregue aos pretos
e não queremos ver crescer aqui os nossos netos
Pretos não; negros, sim!
Viva a Independência Nacional; Viva São Tomé e Príncipe!!!
* Movimento político da época
