50 Anos // 50 Vozes

50 Danos de Independência

Remy Diogo

50 Danos de Independência

por um filho da terra, desiludido mas ainda sonhador

Cinco décadas de um grito calado,

Cinquenta anos de um povo cansado,

Brindámos com sonho, bandeira na mão,

Mas o tempo levou-nos sem rumo ou visão.

 

Numa ilha perdida no meio do mundo,

Onde o céu é azul e o mar é profundo,

Cresci a pensar que era abençoado,

Hoje vejo um berço, esquecido e quebrado.

 

A juventude? Sentada, sem voz nem acção,

Bebendo esperança na mesma ilusão.

Sonhos morrem no banco do bairro,

Enquanto os que mandam jogam ao ensaio.

 

Trocam-se ministros como camisas no varal,

Mas a fome e a dor continuam igual.

Prometem futuro, vendem progresso,

Mas é tudo mentira, um velho regresso.

 

Valores? Sumiram na última eleição.

A verdade morreu na televisão.

Pedofilia? Grita e ninguém ouve!

O rapaz chora, mas ninguém o socorre.

 

Atenção só se dá se for menina,

E o menino? Que aguente a sina.

Assaltos, facadas, vidas ao chão,

São páginas diárias da nossa nação.

 

Poluição pinta cada estrada e esquina,

E as infraestruturas? Tudo ruína.

Escolas rachadas, hospitais sem luz,

Só Deus sabe onde nos leva esta cruz.

 

O profissional sério, hoje é palhaço,

Humilhado por quem brinca no espaço.

A cultura, o hino, tratados com desdém,

Num país onde nada vai bem.

 

Vivemos como abelhas sem rainha,

Num caos onde até a flor definha.

A coroa caiu, ninguém a apanha,

E o povo caminha sem quem o banha.

 

Mas escrevo porque ainda respiro,

Mesmo que a esperança tenha um suspiro.

Talvez esta dor que agora é poesia,

Desperte em alguém uma nova utopia.

 

Cinquenta danos… não, não é engano,

É a herança amarga de um sonho insano.

 

As árvores caem, o machado não cansa,

Num país que a UNESCO ainda balança.

A jóia da biosfera, agora ferida,

Vendida à pressa, sem defesa ou guarida.

 

Até Einstein, Lenda da sapiência, que aqui teve razão,

Foi posto de lado na escuridão.


O ponto onde o tempo muda e dança,

Virou lenda morta, sem esperança.

 

Não há fábrica, não há produção,

Só o barulho do copo e do violão.

Vivemos de festas, fugimos da dor,

Esquecendo que o caos perdeu o pudor.

Somos uma arena de riso embriagado,

Onde o povo é palhaço, domado e calado.

Gladiadores dançam em choque e fumaça,

E a plateia aplaude, sem saber da desgraça.

 

Carros parados viram decoração,

Móveis de rua, sem função.

Bares colados ao hospital doente,

É o retrato de um povo inconsequente.

 

Quem pensa é zombado, calado, esquecido,

E o ignorante, ovacionado, erguido.

O saber virou fardo pesado,

E o burro é rei, aclamado e coroado.

 

Vivemos presos no balde dos caranguejos,

Cada um puxando o outro pelos dedos.

Ninguém sobe, ninguém progride,


Pois se alguém tenta, o resto divide.

 

É a inveja que dita os caminhos,

Onde o sucesso é recebido com espinhos.

“Se eu não posso, tu também não vais!”

E assim morremos sem passos fatais.

 

O sonho do petróleo? Virou miragem,

Promessas vazias em cada reportagem.

Esperámos sentados por riqueza em mar,

Mas só veio dívida pra nos afogar.

 

E o porto profundo, chance de ouro,

Foi esquecido no meio do couro.

Discutiram, viajaram, fizeram sessão,

Mas acção concreta? Nada, irmão.

 

Vendemos a costa, pedaço por pedaço,

Terras trocadas por promessas no espaço.

Praias sumiram, o mar reclamou,

Mas o dinheiro fácil nos cegou.

 

As tartarugas, outrora sagradas,

Hoje são sopa em noites regadas.

E a espécie em risco, quem vai salvar?

Se o pescador tem fome pra saciar?

 

Os fundos do Estado seguem sem freio,

Somem no escuro, sem rastreio.

Ninguém responde, ninguém é julgado,

E o povo assiste, calado, calado…

 

Gritam nas ruas, reclamam na mesa,

Mas quando é pra ajudar, fogem da empresa.

Querem estrada, hospital, evolução,

Mas nem com vintém dão contribuição.

 

Vivem num chão que já não responde,

E ainda exigem que o céu lhes esconda.

Mas país nenhum levanta da lama,

Se quem o habita só exige e reclama.

 

Cinquenta danos, cinco décadas de dor,

De um povo que esqueceu o real valor.

Mas nesta poeira, entre lixo e mentira,

Ainda há quem escreve… e ainda se inspira.

 

E se esta palhaçada não tiver fim,

Se o riso for regra, e o erro jardim,

Preparem o palco, chamem os artistas,

Pois o Cirque du Soleil abrirá pistas.

 

Seremos nação de eterno espetáculo,

Com malabaristas no cargo mais alto.

Trapézios de promessas, ilusionismo vulgar,

Enquanto o povo aplaude sem notar.

Independência dependente, pura ironia,

Mais pareceu teatro — só fantasia.

Cinquenta anos de marcha vazia,

Onde o grito se calou na hipocrisia.

Somos a Terra do Nunca, sem direção,

Morada da utopia e da ilusão.

Voamos no sonho sem construir chão,

Esquecemos da alma, da nação.

 

Terra à deriva, sem norte, sem guia,

De filhos da esquiva e da covardia.

Jogos de cintura viraram profissão,

Críticas sem acto, sem construção.

 

Aqui a verdade veste fantasia,

E a hipocrisia reina com maestria.

Cada rosto é máscara bem ensaiada,

E a sinceridade? Uma piada calada.

 

Este paraíso, perdido ficou,

Os anjos fugiram, o povo ficou.

Esqueceram que a esperança se eleva ao céu,

Não se encontra nas britas, no sangue ou no réu.

 

Caminham de pés rasgados, sem direção,

Mergulhados na lama da corrupção.

E enquanto olharem só pro chão,

Nunca verão a luz da salvação.

 

São Tomé e Príncipe, se não acordares agora,


Serás para sempre o riso de quem chora.


E a história dirá, sem perdão nem poesia:


“Ali, a independência foi só fantasia.”

 

 – 50 Danos de Independência –


por um filho da terra, desiludido, mas ainda sonhador

Pois mesmo ferido, sigo a gritar,
Na esperança que um dia, alguém vá escutar.