50 Anos // 50 Vozes

Somos + ou Menos?

Eugénio Pereira

É desafiante escrever sobre acontecimentos apaixonantes, os sobejamente descalcorizados, descobrir, afinal, que o essencial foi descorado. 

Os filhos esquecem-se dos pais quando, em criança, se cresce sem afeto, sós; a referência distante é o terceiro personificado na figura do Estado, a política, nos homens que lhe dão corpo, na crença, no bruxo e/ou na graça do Espírito Santo. 

*”A culpa não pode morrer solteira”*: 

A expressão popular que encerra sabedoria e nos empurra ao encontro do nós enviesado, aquele que projeta noutra entidade a culpa dos seus/nossos falhanços individuais: 

O Estado, os políticos, a outra cor política, a paixão clubística transferida para política, os pais ausentes e os presentes, a pobreza e/ou a falta de recursos, o vizinho (aquele que rouba ou o que não nos deixa roubar), os recursos, as oportunidades que não agarramos e nos passam ao lado, a preguiça que não despimos, o sucesso dos outros olhado com desconfiança, a miséria como arma de arremesso, 

Falhanço coletivo?

A pobreza como negócio, a política por sustento, a falta de ambição e a inveja numa combinação implosiva servida numa roupagem de falsa modéstia, a pobreza de espírito escondida, a que nos despe em público e nos mostra a gordura visceral disfarçada com recurso à cinta elástica – aquela que nos adelgaça e faz elegantes aos olhos de quem não nos viu despidos –, 

– Hipocresia ou autoengano?

A vista grossa que fazemos a tudo o que apodrece à volta e não nos arranca do conforto do banco de onde o nosso traseiro se recusa a descolar, o ruído que geramos como portador de mensagem subliminar, a que esconde a nossa ambição na conquista do território do adversário (ainda que não tenhamos qualquer projeto para ele), 

– Comodismo e ou estratégias de dessimulação?


O lixo que se acumula à nossa porta e a nossa incapacidade de plantar e cuidar de uma flor, o cheiro nauseabundo do descuido das cozinhas e instalações sanitárias (quando as temos), as conversas que isso alimenta quando exaladas da vizinhança… 

Assombrado?

Chegados aqui, se tiver o leitor tido paciência, poderá ver em detalhe as armadilhas do pensamento humano. 

Depois disto, o que fará diferente? 

Quererá julgar os culpados num tribunal cuja justiça não reconhece? 

O caminho mais curto entre dois pontos não é seguramente uma linha reta se nessa direção se encontra um obstáculo. 

Antes de colocar o dedo em riste a apontar

para aquele que escolheu como vítima, procure as culpas que carrega, ainda que convencido esteja: 

*”Fiz o melhor de sempre”*. 

Vai continuar a fazer tudo da mesma maneira, querendo obter um resultado que seja diferente?! 

Expio as minhas culpas nestas linhas. 

A despropósito, somos mais ou estamos de menos?